O Rosário: uma arma poderosíssima e um remédio salutar

Uma arma poderosíssima

O Rosário é a arma mais eficaz para vencer os actuais inimigos da doutrina evangélica e da religião. Esses inimigos já vimos quais são. É para opor resistência organizada às suas doutrinas que somos chamados a unir-nos todos pelo Rosário: às suas doutrinas e não às suas pessoas. Eles, não se trata de combatê-los, mas e conquistá-los para Deus pela oração e pela reparação. Temos, pois, que rezar e sofrer, todos unidos em apostolado “sobretudo com este fim, diz Pio XI: para que os inimigos do nome divino, todos os que renegam e vilipendiam o Deus eterno, todos os que armam emboscadas à fé católica e à liberdade devida à Igreja, todos os que, finalmente, opõem, com insensatos esforços, contra os direitos divinos e humanos, para levar à ruína e à perdição a sociedade humana, sejam vencidos pela graça e induzidos à penitência, para que voltem ao caminho recto e se coloquem sob a tutela e protecção de Maria. Que a Santíssima Virgem, que um dia pôs vitoriosamente em fuga a terrível seita dos albigenses que infestava os países cristãos, hoje por nós invocada e suplicada, dissipe os novos erros da humanidade”.

Um remédio salutar

O Rosário é-nos tão recomendado hoje, porque ele é o remédio mais eficaz contra o mal fundamental que enferma o mundo e hoje é o remédio a opor à apostasia social e individual. Com efeito, o Rosário é antes de tudo uma escola de vida interior, sobrenatural. Se ele foi sempre a melhor escola de ascética, hoje é de um modo especial. Porquê? É que o Rosário, descobrindo-nos as profundezas maravilhosas dos mistérios do Salvador e de Sua Mãe, excita-nos a reproduzir em nós os seus exemplos. É o que ensina Pio XI: “O Rosário de Maria não serve somente para vencer os inimigos de Deus e da Religião; é também um estímulo e um incitamento à prática das virtudes evangélicas, que desperta e cultiva em nossas almas”.
O Rosário alimenta a fé católica que floresce precisamente pela meditação dos santos mistérios e abre os espíritos até às verdades reveladas por Deus; isso é salutar especialmente em nossos dias, quando, mesmo entre os fiéis, se percebe um certo afastamento das coisas do espírito e quase que tédio da doutrina cristã.
O Rosário reaviva também a esperança dos bens imortais porque o triunfo e glória de Jesus Cristo e de Sua Mãe, que meditamos nos mistérios gloriosos, mostra-nos o Céu aberto e convida-nos à conquista da eterna Pátria.
E a caridade, que em tantos se esfria e desaparece, como não se reacenderá numa efusão de amor nas almas daqueles que recordam as torturas e a morte do nosso Redentor e as aflições de Sua Mãe dolorosa? _ E dessa caridade para com Deus não pode deixar de brotar mais intenso amor para com o próximo.
Aqui temos em três palavras os maravilhosos frutos do Rosário bem meditado: Fé, Esperança e caridade para com Deus e para com o próximo. É a quinta-essência do Evangelho e o resumo de toda a vida sobrenatural.

Como estamos longe dos métodos de espiritualidade negativa e “abstencionista” com que lutam em vão tantas almas! O confessionário não é para elas mais que um meio de descarregar o peso da consciência para voltarem logo a tropeçar e a cair, tirânica fatalidade! E a toldar a alma com um véu sombrio de tristeza e fastio interior. É fácil de compreender! Pois um coração e carne nunca pode estar vazio; nunca está quieto, dizia já Santo Agostinho. É um fogo que arde sempre, e se não derem um pasto bom às suas chamas ele saberá encontrar um mau. Não, a vida espiritual não consiste em abster-se do mal; se assim fosse, não era uma vida. A fé não consiste em não duvidar dos dogmas; a esperança não consiste em evitar o desespero; a caridade não consiste em evitar o ódio a Deus e ao próximo; a pureza não consiste só em abster-se dos prazeres sensuais etc., tudo isso não é mais que o aspecto negativo, a condição para se construir algo de positivo; mas essas virtudes são as actividades da graça divina em nós; são coisas muito positivas, porque são uma vida e tudo o que é vital progride, cresce e expande-se em radiosa floração. E porque é uma vida, há-de ter os seus degraus na linha ascensional do progresso. Mas é uma vida que se aprende a pouco e pouco. Qual é, pois, a escola? O Rosário bem meditado. Nesta escola o grande Mestre é o próprio Cristo que promete manifestar-se a si mesmo a quem O procurar. É na meditação dos Seus Mistérios que Ele se manifesta progressivamente sempre com novas belezas e encantos para o pobre coração humano. E como Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, por esta meditação dos Seus mistérios subiremos, como levados pela mão, ao mistério insondável da Augusta Trindade das Pessoas Divinas para atingirmos, enfim, a meta suprema: “A vida eterna, diz S. João, consiste em Vos conhecer, a Vós, único Deus verdadeiro e conhecer Aquele que Vós, único Deus verdadeiro e conhecer Aquele que Vós enviastes, Jesus Cristo”.

O Rosário, eis, pois, a escada de oiro para subir a essas alturas beatíficas, a grande escola de progresso espiritual. Progresso que nos vai libertando da tirania das paixões escravizastes para criar em nós uma paz que não é deste mundo. O exame de consciência não se limita mais à análise acabrunhante desanimadora das faltas cometidas e das derrotas sofridas, mas passa a ser também o reconhecimento humilde e grato do trabalho da graça na alma, dos passos dados para a frente, dos degraus subidos. O confessionário é antes o marco miliário a marcar novas ascensões; é a purificação da alma, sim, mas também a sua fortificação para o futuro, pela graça sacramental. Só assim a vida cristã se torna aquela viva emulação de que fala S. Paulo, aquela corrida esforçada para atingir a meta, isto é, a união perfeita com Deus, possuído totalmente pela inteligência e pelo amor. Só assim esta vida será uma fonte de alegria e libertação. O Rosário liberta-nos das peias que acorrentam tantos cristãos, demasiado preocupados em evitar a transgressão dos preceitos da Lei, não têm asas para subir aonde estes devem conduzir-nos: ao gozo de Deus. Seria reduzir a vida de filhos e amigos de Deus que somos depois da vinda de Cristo. Seria reduzir a vida cristã à vida da Lei de Moisés, anterior à vinda de Cristo. Seria reduzir a vida de filhos e amigos de Deus que somos depois da vinda de Cristo, à vida de escravos da Lei como eram os nossos pais na fé anterior à Redenção. S. Pedro diz-nos: “rogo-vos, caríssimos, que vos abstenhais, como estrangeiros e peregrinos neste mundo, dos desejos carnais que combatem contra a alma”; mas antes disto já nos tinha dito: “como meninos recém-nascidos desejai o leite racional para que com ele cresçais para a salvação, se todavia haveis gostado quão doce é o Senhor. Chegai-vos para Ele como para pedra viva, reprovada sim pelos homens, mas escolhida por Deus para ser a pedra angular do edifício, sobre ela sede vós mesmos edificados como pedras vivas, como edifício espiritual”. Ora, como se pode edificar o edifício de uma vida espiritual sólida, sobre um alicerce negativo? A vida cristã inspira tédio até a muitos fiéis, diz Pio XI: porquê? Porque eles não vêem na religião senão uma série de proibições e obrigações. Erro gravíssimo dos nossos tempos! É urgentíssima a necessidade de dissipar este desastroso equívoco! É por isso que a Igreja Católica, apesar de ser a única verdadeira e a única depositária da Verdade na Revelação e da Vida nos Sacramentos, tem a lamentar tantas deserções. Urgentíssima é, pois, a aplicação do remédio a opor a esta dissolução progressiva do Corpo Místico de Cristo. O remédio indicado pela mensagem do Céu, pelos Papas e pelos Bispos é a mediação dos mistérios do Rosário. Esta mediação abre à nossa mísera inteligência horizontes magníficos do Mistério do Filho de Deus, da Sua Misericórdia e do Seu Amor infinito por nós e só assim o coração se enamora dessa infinita beleza.

Enfim, a meditação dos mistérios é uma comunhão espiritual, uma comunhão de desejo que nos prepara maravilhosamente para a comunhão eucarística. A graça da Eucaristia, como todas as graças, não é concedida senão a quem a desejar e quem mais desejar mais recebe; por isso, a glória do Céu tem graus diferentes. Ora, o meio de desenvolver o desejo de Deus, de dilatar o coração para mais receber, é meditar os mistérios de Cristo e de Maria e de comungar neles. Comungando nas suas alegrias nos mistérios gozosos, andamos alegres cá na terra e desejamos as alegrias do Céu. Comungando nas dores e tristezas dos dolorosos, encontramos bálsamo e alívio às nossas dores e tristezas aproveitando-as como purificação preparatória para a glória futura; enfim, comungando nos seus triunfos temos a esperança certa de que com Cristo e Maria ressuscitaremos e subiremos ao Céu. Aí está a grandeza do Rosário. É ele que mais nos aproxima da fonte da graça-Cristo-Hóstia, e nos traz unidos ao centro de toda a vida litúrgica da Igreja, que é a Eucaristia. O Rosário faz convergir toda a nossa vida interior para a Comunhão e o Sacrifício do altar em vez de a desviar como tantas devoções mal entendidas. A grandeza do Rosário consiste precisamente em não substituir o essencial – a Eucaristia – mas de ser antes uma preparação para ela e um complemento; complemento, sim, porque enquanto a Missa e a Comunhão nos unem sacramentalmente a Cristo Medianeiro, assim o Rosário nos une espiritualmente a Maria Santíssima e por Ela a Cristo; complemento porque o pecador não podendo usar, sem sacrilégio, da comunhão, tem que recorrer ao Rosário que prepara e dispõe para receber de novo a misericórdia divina.

“Missa bem vivida, Rosário bem rezado – diz Mons. Gaudel, eis os dois grandes remédios actuais contra o mal”.

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