O Rosário na religiosidade popular

Depois do Vaticano II, tendíamos a menosprezar a importância da “religiosidade popular”. De forma acertada, demos maior relevância ao estudo bíblico e a uma maior participação na Liturgia. Ao fazê-lo, minimizámos aquelas formas de expressão que permitiam uma grande manifestação de sentimentos religiosos; por exemplo, a exposição do Santíssimo, as procissões, as peregrinações a santuários, devoções rosarianas, etc. Agora, depois de quarenta anos de experiência, verificamos que as pessoas, mais velhas e mais jovens, necessitam destas expressões para «que reacendam o dom de Deus que se encontra em si» (2 Tm 1,6).

Esta religiosidade popular ainda perdura com firmeza nos santuários marianos em todo o mundo. Este ano celebramos os 150 anos de Lourdes (França), e o ano passado celebrámos os 90 anos de Fátima (Portugal), para mencionar apenas os santuários que atraem literalmente milhões de pessoas por ano. Poderíamos referir também Guadalupe (México), Czestochowa (Polónia), Knock (Irlanda), Chiquinquirá (Colômbia), Coromoto (Venezuela), Luján (Argentina), Manaoja (Filipinas), e muitos mais. Quase todos os países do mundo possuem um santuário nacional dedicado a Nossa Senhora, que une todos os fiéis, de longe e de perto, num abraço maternal.

Ainda se vêem nos automóveis medalhas de São Cristóvão e terços pendurados nos retrovisores, pequenos altares caseiros ou estátuas em jardins. Temos os rituais das cinzas no início da Quaresma e os ramos no princípio da Semana Santa, que nos dão a conhecer os desejos e sentimentos religiosos do povo. Estes ritos introduzem uma certa ordem e estabilidade, um certo ritmo e dimensão “encarnadora” nas vidas das pessoas comuns, permitindo-lhes viver mais profundamente os eventos religiosos. Conse-guiremos, nós Dominicanos, recuperar esta religiosidade popular através de algo que nos é próprio, o Rosário?

Tomei consciência de que o Rosário é uma oração universalmente estimada. Tanto em Itália, como na Ucrânia, México ou Estados Unidos da América, Filipinas, Vietname, Quénia ou Nigéria, o Rosário é rezado e amado. Creio que uma razão para que tal aconteça será a sua dimensão de oração tangível. É algo que quase cada católico tem. Dá-se como presente. É um ritual que se celebra tanto em privado como em comum. É algo que se pode tocar, segurar e apertar nas mãos em momentos difíceis da nossa vida. É como dar a mão a Nossa Senhora. O Rosário tanto é colocado nas nossas mãos na «hora da nossa morte», como no dia do nosso enterro. As suas orações são resumos da nossa fé. Aprendê-las, é como aprender a falar; são o princípio de uma vida de oração e, também, o final da nossa vida de oração – «Faça-se a tua vontade, agora e na hora da nossa morte». Recebemos um terço na nossa juventude, um rosário quando tomámos o hábito dominicano, e um rosário acompanha-nos no nosso funeral.

Conclusão - Partilhei convosco algumas das minhas reflexões, espero que simultaneamente sensatas e profundas; talvez mais uma meditação e reflexão do coração do que qualquer outra coisa.

Procuremos redescobrir o valor do Rosário na nossa vida pessoal, na vida de família e social. Deste modo, contribuiremos para o futuro da religiosidade popular. Com o Rosário conseguiremos contemplar o Filho, o nosso Mestre, com os olhos da sua Mãe; conseguiremos contemplar o nosso mundo com a sua tremenda necessidade de ser transformado pelo Evangelho. Conseguiremos chegar a viver apaixonados pela criatividade de Deus Pai e de Maria, Mãe do Filho muito amado.

Category:
Portuguese